Daniel Marques


(PT) Tenho certeza que o skate é como um espelho, ele reflete quem está sobre ele. Com admiração e certa dose de curiosidade, entrevistei Daniel Marques, um skatista raro em busca de conhecimento interior e exterior. Nessa jornada, o skate tem sido beneficiado com uma interpretação do plano físico que reflete a personalidade transcendental do Daniel.

(EN) I’m sure that the skateboard is like a mirror, it reflects who’s on it. With admiration and a small dose of curiosity, I interviewed Daniel Marques, a rare skater in search of interior and exterior knowledge. On this journey, the skateboarding has benefited from an interpratation of the physical plane which reflects Daniel’s transcendental personality.

Interview by Marlon D. Oliveira.
Photographs by Frederico Vegele.

daniel-marques-by-frederico-vegele-oye-01(PT) Para começar Daniel, quando você se tornou você mesmo?

Nascemos com algumas impregnações de uma programação social, cultural, religiosa e familiar em nossas células e no inconsciente, e conforme crescemos vamos recebendo mais e mais dessa programação. É natural, tem isso até na própria cultura do skate. Acho que estou no caminho de me tornar eu mesmo, desde que comecei a perceber que existe essas impregnações, em mim, em nós, e reconhecer que são parte de mim, e não todo eu. Tá ligado? É um caminho muito longo e de muitas direções e conexões. O skate tem sido fundamental em toda essa experiência. Com certeza me ajudou e ajuda a reconhecer muita coisa, a negar algumas, e aceitar outras. Tipo, várias paradas que cresci sentindo vergonha – do meu jeito de ser e de fazer as coisas – por causa de julgamentos, que fazem parte dessa “programação social”, não me afetam mais hoje. Isso acaba até refletindo no skate, porém, muita coisa, mesmo reconhecida, ainda tem forte impregnação.

Posso estar nos primeiros passos de me tornar eu mesmo. Mas que arriscado seria se eu afirmasse que já sou eu mesmo, não é? Poderia ser uma ilusão, ou não… (risos)

(EN) To start up Daniel, when did you become yourself?

We are born with certain impregnations from a social, cultural, religious, and family programming in our cells and in our unconscious mind, and as we grow up we receive more and more of that programming. It’s natural, you have that even in skateboarding culture. I think I’m on my way to become myself, since I started to notice these impregnations, in me, in us, and recognized they are a part of me, and not me as a whole. You know what I mean? It’s a very long path with many directions and connections. Skate has been fundamental in all this experience. It certainly helped me and helps me to acknowledge a lot of things, to deny some, and accept others. Like, a lot of the things I grew up ashamed – of my way of being and doing stuff – because of the judgements, which are part of this “social programming”, don’t affect me much these days, that ends up reflecting on my skate, but, a lot of things, even recognized, still has strong impregnation.

I may be on the first step to knowing myself. But how risky would it be if I claimed I’m already myself, right? It could be an illusion, or nor… (laughs)

daniel-marques-by-frederico-vegele-oye-02(PT) Então estas percepções sociais e culturais ajudaram você a desenvolver um estilo de andar de skate mais livre?

Pode ser consequência disso também, mas acho que tem outras coisas envolvidas no meu jeito de andar de skate, sempre tive uma percepção de ver várias possibilidades. Até mesmo jogando futebol quando era criança, minha posição era armador. Eu não fazia vários gols nem salvava o time na defesa, pegava na bola e já estava com a visão de tudo que estava rolando, então dava algum passe que abria a jogada pro time. Teve uma fase que no rolê do dia a dia ou até mesmo na época que ia direto pros campeonatos – quando subia em cima do quarter e tinha aquela vista geral da pista, sabe? – já logo percebia a maioria dos skatistas fazendo ‘da mesma coisa’ e não conseguia sentir vontade nem de dropar mais (risos). Porém, dali vinha uma força de experimentar algo que vinha só de mim, surgia alguma ideia e aí ficava motivado. Falando assim parece até que o processo do rolê é meio complexo (risos), mas é muito simples na real, apenas tenho alguma ideia – que hoje em dia percebo que é intuitiva – e logo vem aquele fogo que faz mover e experimentar. Mesmo assim, não acho que meu skate seja tão livre assim, sinto que tenho sido livre no sentido de, na maior parte do tempo, eu estar conseguindo andar do jeito que quero e conforme me sinto no momento. Será que isso é o tal do skate livre?

(EN) So these social and cultural perceptions help you to develop a style of skating that’s more free?

It could be the consequence of that too, but I thinks that there’s other things involved in the way of riding a skateboard, I always had a perception of see different possibilities. Even playing soccer as a kid, my position was creator. I didn’t score many goals nor saved the team on defense, I took the ball and I already had the vision of everything that was going on, so I threw a pass that opened up the play for the team. There was a time that on your day to day ride or even at the time went a lot to competitions – when I got up on the quarterpipe and had that general view of the track, you know? – and I soon realized that most skaters were doing the same thing and I didn’t even feel like dropping anymore (laughs). But, from that came a force to experiment something that came only from me, some idea came up and I got motivated. Talking like this it seems like the process of riding is kinda complicated (laughs), but it’s very simple for real, I just have an idea – which nowadays I realize is intuitive – and soon enough comes that fire that makes me move and experiment. Even so, I don’t think that my skate is something that free, I feel like I have been free in the sense that, most part of my time, I am able to ride the way I want and according to how I feel at the moment. Is that the so called free skating?

daniel-marques-by-frederico-vegele-oye-03(PT) De que maneira a sua relação com a natureza influencia na sua relação com a cidade, como skatista?

Tenho muito mais relação com a cidade do que com a natureza, eu cresci na cidade sem muito contato direto com a natureza. Então o respeito, atenção, alerta, observação, contemplação que temos quando estamos na natureza, experimentei antes na cidade com o skate, andando nas ruas. Porém, isso só se tornou mais consciente quando comecei a ter mais contato com a natureza, que ainda é pouco. E acho que a influência está mais nisso, tentando fazer mais parte do ambiente e do movimento que está ao redor, sem interferir de forma negativa, interagindo com a selva de concreto como se estivesse na selva, já que ambas seguem leis parecidas, só que uma regida mais pelos homens e a outra por forças muito maiores! Só mudam os objetos e seres (risos). Por exemplo, um vacilo num passo e você pode ser picado por uma cobra, um passo pro outro e você pode pisar numa planta e matar ela. Uma curva pra um lado você pode passar em um buraco e tomar um “rola”, um Wallride que você acerta numa parede pode quebrar o azulejo novinho do estabelecimento (haha). Tudo tem uma consequência.

(EN) In what way your relation to nature influences your relation with the city, as a skater?

I have a much bigger relation to the city than to nature, I grew up in the city without much direct contact with nature. So respect, attention, alert, observation, contemplation that we have when we are in nature, I experienced before in the city with skating, riding the streets. However, that only became more conscious when I started to have more contact with nature, which is still little. And I thinks that the influence is more on that, trying to be more part of the environment and the movement that is all around, without interfering in a negative way, interacting with the concrete jungle like you were in the jungle, since both follow similar laws, only that one is more ruled by men and the other by much bigger forces! Only the objects and the beings change (laughs). For example, a mistake in one step and you can be stinged by a snake, a mistake on the other and you can step on a plant and kill it. A curve to one side you can go over a hole and hit the ground, a Wallride on a wall may break the brand new tiles of the establishment (laughs). Everything has a consequence.

daniel-marques-by-frederico-vegele-oye-04(PT) Você tem tatuado “Observar / Absorver”, você conhece pessoalmente o Eduardo Marinho, autor da frase?

Não conheço! Várias pessoas pensam que copiei dele (risos). Já tinha escrito na minha lixa esse jogo das palavras muito antes de ter visto algo dele. E falando nisso, gostaria de conhecer ele!

Grande coincidência, haha! Você também é um pensador das ruas.

Pelo o que ele conta da vida dele, ele é muito mais rua do que eu (risos). Sobre a grande coincidência, está tudo aí no ar, a gente só capta. Acho que sintonizamos na mesma rádio cósmica (hahah).

Falando em captar, o que você tá lendo atualmente? Fale um pouco sobre.

“A vinda do Cristo Cósmico”, estou no começo ainda. O autor conta sobre aspectos da Mãe Terra que está morrendo devido à falta de uma consciência espiritual mais conectada com o planeta, e grande motivo disso é o domínio patriarcal na cultura, desde muito tempo, e como seria importante nesse momento o ser humano resgatar essa ligação com a “Mãe”, com a natureza que nos cerca, e com o universo que são nossos próprios corpos, despertando o Cristo Cósmico em cada um, através de um renascimento de nossos hábitos e costumes. Percebo que estamos passando por isso mesmo.

Tenho lido bastante textos pequenos da internet também. Ando meio confuso em relação a algumas atividades, com tanta informação assim que está disponível, as vezes fico sem foco.

(EN) You have “Observe / Absorb” tattoed, do you know Eduardo Marinho personally, the author of that quote?

I don’t! Many people think I copied it from him (laughs). I had already written that play of words on my griptape before I saw something of his. And speaking about it, I’d like to meet him!

Big coincidence, haha! You are also a freethinker of the streets.

From what he tells of his life, he’s more experience on the streets than I am (laughs). About the big coincidence, everything is out there in the air, we just capture it. I guess we both tuned into the same cosmic radio (hahah).

Talking about capture, what are you reading these days? Talk a little bit about it.

“The Coming of The Cosmic Christ”, I’m still at the beginning. The author talks about aspects of Mother Earth that is dying due to a lack of spiritual consciousness more connected to the planet, the great reason for that is the patriarchal dominance in our culture, since long ago, and how it would be important right now for the human being to recover this connection with the “Mother”, with the nature that surrounds us, and with the universe which are our own bodies, awakening the Cosmic Christ in each of us, through a rebirth of our habits and costumes. I realize that we are going exactly through that.

I have been reading a lot of small texts on the internet too. I’ve been kinda confused about some activities, with so much information that is available, sometimes I loose focus.

daniel-marques-by-frederico-vegele-oye-05(PT) Vamos ser específicos, então? Gostaria de jogar na mesa algumas palavras para você comentá-las.

Competição

Consequência do medo e da sobrevivência em um nível mais baixo.

Amizade

O contrário de competição.

Universo

Vai que volta, volta que vai maior ainda. Vamo que vamo! Tudo junto ao mesmo tempo e ao mesmo tudo sem tempo nenhum.

Como você se sente sendo um skatista de expressão poética vivendo em uma época de alta valorização da performance técnica e dos resultados?

Me sinto muito bem (risos). Acho que o skate tá numa fase muito boa e muito louca ao mesmo tempo, está amplo demais. Algumas coisas grandes acontecendo e numa linguagem de massa, mais quadrada. Muitas coisas menores e mais locais numa linguagem mais expressiva, que se tornam globais pela facilidade da comunicação. Tem marcas que valorizam um, e marcas que valorizam outro. Tem skatistas consumidores pra todas essas, lógico que a massa mais quadrada ainda é maior (risos). Me sinto bem também em meio a esse mercado incerto que está o Brasil, poder andar pra marcas que me suportam pelo que sou e não por “resultados de alta performance técnica”.

(EN) Let’s be specific then? I’d like to throw a few words on the table for you to comment them.

Competition

Consequence of fear and survival at a lower level.

Amizade

The opposite of competition.

Universe

Comes and goes, when it goes it comes even bigger. Keep on going! Everything together at the same time and all together everything with no time.

How do you feel being a skater with poetic expression living in an age that gives high value to technical performance and results?

I feel pretty good (laughs). Think that skateboarding is in a really good and crazy stage at the same time, it’s too broad. Some big things happening in a cool language, more square. Much smaller things and more local in a more expressive way, that become global because of easy communication. There are brands that value an, and brands that value the other. There are consuming skaters for all of those, of course that the square mass is even bigger (laughs). I also feel good in the middle of this uncertain market that is in Brazil, being able to ride for brands that support me for what I am and not for “high technical performance results”.

daniel-marques-by-frederico-vegele-oye-06(PT) Obrigado Daniel, pelo seu tempo e por dividir estas reflexões conosco.

Agradeço também Marlon e ao Fred pela oportunidade de conversarmos dessa forma e pelo tipo de informação que estão transmitindo, nesses tempos malucos de internet, isso é muito importante. Valeu.

(EN) Thanks Daniel, for your time and for sharing these reflections with us.

I also thank Marlon and Fred for the opportunity to chat this way and for the kind of information that you are spreading, in these crazy internet times, that is very important. Thanks a lot.


___
___

RELATED ARTICLES